O ofício da costura é uma das mais antigas profissões do mundo, um trabalho que vem dos primórdios da civilização. A história da costura está ligada à evolução das sociedades como um espelho que reflete as mudanças nos costumes, valores e cultura ao longo do tempo.

Nos últimos meses, procurei pesquisar e estudar para entender melhor o momento das profissionais da costura no contexto de Santa Cruz do Capibaribe, cidade-mãe do Polo de Confecções do Agreste Pernambucano. De cara, um número importante, oito em cada dez confeccionistas reclamam da falta de costureiras. Os empreendedores relatam que não conseguem vender mais, porque não encontram costureiras para aumentar e/ou diversificar a produção.

Para ter mais clareza da situação, é necessário compreender a dinâmica de funcionamento de Santa Cruz do Capibaribe não apenas no âmbito do ambiente de negócios, mas sim, na sua totalidade. A partir daí, podemos trabalhar as soluções, mas antes disso, precisamos citar alguns fatores que contribuem para esse preocupante contexto da falta de profissionais da costura no mercado:

  • Um aumento expressivo no ambiente de negócios do Polo de Confecções ao longo das duas últimas décadas gerou um forte crescimento na demanda por costureiras;
  • Apesar da escassez de costureiras e da grande demanda dessas profissionais no mercado, a baixa valorização da profissão entre os jovens faz cair o interesse das novas gerações pelo ofício da costura, travando a entrada de novas profissionais da costura no mercado;
  • As novas profissões baseadas na transformação digital praticamente monopolizam o interesse dos mais jovens que estão entrando no mercado de trabalho;
  • Estrutura de capacitação deficiente (para não dizer inexistente);
  • Como temos um robusto ambiente de negócios baseado na micro e pequena empresa com relativas facilidades para empreender, isso faz com que muitas costureiras optem por abrir seu próprio pequeno negócio. O que por um lado é muito bom, porque fortalece, oxigena e diversifica nossa base de empresas. Mas por outro lado, fragiliza a oferta de profissionais da costura, um serviço essencial para o crescimento das empresas já existentes.

Como podemos observar, uma combinação de fatores forma um gargalo que Santa Cruz do Capibaribe precisa tratar de maneira urgente e estratégica, sobretudo por ser a cidade referência do Polo de Confecções de Pernambuco. Contudo, o propósito deste texto é tentar despertar a atenção para um cenário desafiador que deve ser levado em consideração no debate de ideias e propostas no processo de evolução do nosso ecossistema empreendedor, principalmente num ano com eleições municipais como 2024, mas não somente em ano eleitoral, esse precisa ser um debate permanente.

É fundamental criar em Santa Cruz condições diferenciadas para valorizar a costureira e o costureiro. Não é uma questão de privilegiar uma classe em detrimento de outras. É sim, uma questão de estratégia de competitividade, de inovar criando possibilidades e oportunidades para o nosso desenvolvimento socioeconômico seguir firme e forte. Trata-se de reconhecer e verdadeiramente valorizar quem de fato colabora com mais presença e maior intensidade para fazer o real desenvolvimento acontecer.

Coloco aqui algumas ideias que podem servir como ponto de partida na busca das soluções para esse desafio:

  • Os AMEs (Ambulatório Médico de Especialidades) são importantes estruturas de saúde pública de alta resolutividade, com modernos equipamentos, que oferecem consultas e exames, proporcionando maior rapidez ao diagnóstico e ao tratamento dos pacientes. Poderíamos ter em Santa Cruz do Capibaribe um “AME COSTUREIRA”, que seria uma unidade exclusiva para profissionais da costura;
  • Creches e escolas da rede municipal com parte das vagas reservadas para filhos de profissionais da costura;
  • Construir novas creches para atender a demanda do município;
  • Adequar e/ou flexibilizar horários de entrada e saída de creches e escolas públicas municipais, que costumam abrir mais tarde e fechar mais cedo do que as indústrias de confecções;
  • Articular esforços para trazer de volta a escola técnica do Senai para Santa Cruz do Capibaribe, ou criar uma escola técnica municipal para profissionais da costura numa parceria entre prefeitura e Ascap;
  • Articular esforcos para construção de uma unidade do SESI (Serviço Social da Indústria) em Santa Cruz do Capibaribe-PE;
  • Incrementar a formação da costureira com novas habilidades capazes de gerar mais valor para a profissão. Aqui alguns exemplos interessantes de novas habilidades: conhecimento básico de design de moda, conhecimento básico de novas tecnologias, sustentabilidade na moda, educação financeira e inteligência emocional;
  • Criar uma poderosa campanha de valorização da profissão de costureira, mostrando através de diversos canais de comunicação a importância das profissionais da costura para a economia do município, destacando a criatividade, a produtividade e o talento de costureiras e costureiros;
  • Construir um grandioso monumento em homenagem às costureiras;
  • Criar ou adequar uma linha de crédito específica para costureiras que trabalham em casa e precisam comprar máquinas de costura e instalar um sistema de geração de energia solar.

O perfil econômico de Santa Cruz do Capibaribe-PE feito pela CDL mostra que, a cada 10 reais movimentados na economia do município, 7 reais são gerados pelo setor têxtil e do vestuário.

Vale reforçar que profissionais da costura são protagonistas desse setor, fortalecer de maneira estratégica esse protagonismo é fortalecer de maneira direta o coração da nossa economia. Vamos em frente, confiando em Deus e na força de trabalho da nossa gente.

Escrito por: Bruno Bezerra é graduado em Administração de Empresas e atual presidente da CDL Santa Cruz do Capibaribe-PE

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