Apesar de liderarem o índice de adimplência, as mulheres ainda têm dificuldade de acessar linhas de crédito e, quando conseguem, pagam mais caro

O acesso ao crédito é um dos principais obstáculos enfrentados pelos empreendedores brasileiros – seja homens, seja mulheres –, especialmente, o de micro e pequeno porte e o microempreendedor individual. No caso das empreendedoras, 55% consideram difícil ou muito difícil conseguir crédito no Brasil, aponta pesquisa realizada pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e o Serviço de Proteção ao Crédito (SPC), em parceria com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae).

O estudo foi divulgado no Dia Internacional da Mulher deste ano e mostra que elas querem crédito para incrementar o capital de giro (38%), pagamento de dívidas (35%), ampliação do negócio (35%) e compra de estoque e insumos (25%).

Charys Oliveira, head de Saúde Financeira da Ahfin – fintech RH que promove educação e benefícios financeiros acessíveis –, traz mais um complicador para a conversa: apesar de o mercado saber que são melhores pagadoras, as mulheres ainda enfrentam dificuldades de conseguir crédito com taxas justas para os seus empreendimentos.

Estudo sobre empreendedorismo feminino, produzido pelo Sebrae em 2019, confirma o que diz a especialista em finanças: a desvantagem para as empresárias é significativa quando o assunto é acesso a crédito e linhas de financiamento. O valor médio de empréstimos liberados para elas é de aproximadamente R$ 13 mil a menos que a média aprovada para os homens. As mulheres empreendedoras ainda pagam taxas de juros 3,5 pontos percentuais acima do sexo masculino. Com relação aos índices de inadimplência, 3,7% das mulheres são inadimplentes, enquanto os homens apresentam um indicador de 4,2%.

“A dificuldade real está nas condições, não na oferta. A meu ver, o que pode ser um motivo, está nas políticas de crédito e análise de perfil que podem ter sido construídas de maneira impregnadas de tabus, preconceitos e pouca diversidade no board de decisores”, pondera Charys Oliveira.

No Banco do Nordeste (BNB), por exemplo, estão adimplentes 92% dos empréstimos destinados a mulheres da área rural – dinheiro advindo do programa Agroamigo e do Fundo Constitucional de Financiamento do Nordeste. Para os homens, a adimplência cai para 85%. A instituição financeira divulgou ainda, este mês, que as agricultoras diversificam mais no uso dos recursos, ao investir o dinheiro em culturas agrícolas diferentes, e não apenas em uma só.

“Os operadores de crédito precisam rever as nuances das suas políticas de crédito, reeducar seus colaboradores que estão na ponta da decisão na concessão de crédito… Mas mudanças culturais são mais lentas, enquanto elas estão em processo, as políticas públicas podem sim ajudar a acelerar o crescimento do empreendedorismo feminino”, afirma a head de Saúde Financeira.

O  levantamento da CNDL e do SPC apresenta mais um dado interessante: para iniciar o novo negócio, aproximadamente 6 em cada 10 empresárias utilizaram capital próprio (59%). Algumas apelam para o cartão de crédito pessoa física (17%) ou empréstimo familiar (15%). Para dar o ponta pé inicial, as empresárias investiram, em média, R$ 3.010.

“Nesse cenário, as mulheres empreendedoras acabam utilizando recursos próprios como única fonte de investimento. Isso faz com que o crescimento, o parque tecnológico, a equipe e a promoção do negócio fiquem poucos competitivos frente aos concorrentes com mais facilidade de acessar crédito”, ressalta Charys Oliveira.

Fonte: Varejo S.A

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