Embora o cartão de crédito seja a modalidade de crédito mais popular entre os brasileiros, ele vem se tornando um problema para uma parcela dos consumidores. Uma pesquisa do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) e da Confederação Nacional de Diretores Lojistas (CNDL) aponta que um em cada cinco usuários de cartão de crédito (20%) utilizam o meio de pagamento como extensão da própria renda. Ou seja, acabam recorrendo a esse tipo de crédito para continuar comprando quando o salário do mês acaba e, assim, adiar o pagamento.

Para a economista-chefe do SPC Brasil, Marcela Kawauti, o grande perigo de achar que o cartão de crédito funciona como renda complementar é o endividamento, porque muitos perdem controle dos gastos e compram além do que conseguem pagar quando a fatura chega. “É preciso cuidado. Se o dinheiro que o consumidor dispõe já não está sendo suficiente para cobrir os atuais gastos, certamente não será o bastante para pagar as despesas do mês seguinte, quando terá de arcar com a fatura do cartão de crédito e também quitar as contas do mês”, alerta a economista.

Por outro lado, 44% dos entrevistados que utilizam o cartão afirmaram usá-lo apenas em casos de necessidades pontuais ou imprevistos, ao passo que 38% o fazem para parcelar as compras e 34% para facilitar o pagamento na internet. “Se bem empregado, o cartão é uma maneira inteligente de concentrar as compras realizadas durante o mês em uma única conta, possibilitando um melhor controle dos gastos”, observa o educador financeiro do portal ‘Meu Bolso Feliz’, José Vignoli.

O levantamento mostra ainda que quatro em cada dez consumidores (41%) usuários de cartão já deixaram de fazer compras em estabelecimentos por não aceitarem essa forma de pagamento, sendo que destes 41% deixaram de ir a bares, restaurantes e lanchonetes, 35% não compraram com ambulantes e 19% desistiram de abastecer em postos de combustível. Outros 27% acabaram pagando suas compras de outra forma.

Na maior parte das vezes (46%), o cartão de crédito é usado para fazer compras pela internet. Já 44% usam quando não estão com dinheiro para pagar à vista e 37% se o valor da compra for elevado. Outros 24% disseram utilizam o cartão em quase todas as compras, independentemente do valor do bem adquirido.

A pesquisa também constatou que mais da metade dos gastos realizados com cartão de crédito (54%) são para comprar roupas, calçados e acessórios ― percentual que aumenta para 60% entre as mulheres. Em seguida vêm os eletrônicos (44%), as compras de supermercado e alimentos para a casa (43%) e itens de farmácia (40%).

O estudo mostra também que o uso do cartão de crédito já está difundido no Brasil. Nos últimos 12 meses, 67% das pessoas realizaram alguma compra utilizando esse meio de pagamento e 68% o fazem pelo menos uma vez por mês. Na opinião desses entrevistados, as principais vantagens de seu uso são a possibilidade de parcelar o valor dos gastos (17%), segurança de não andar com dinheiro no bolso (16%) e fazer compras mesmo sem ter recursos disponíveis no momento (15%). Na contramão, 30% afirmaram não ter utilizado essa forma de crédito no período.

Apesar da praticidade, 84% dos usuários de cartão concordam que há riscos em ter um cartão de crédito, sendo que os mais destacados são a possibilidade de clonagem (38%) e a perda no controle dos gastos (33%).

Em média, cada usuário entrevistado possui dois cartões, sendo que grande parte não paga taxa de anuidade (45%). Outro dado que chama a atenção é o número de pessoas que controla os gastos mensais com o cartão (67%) — muitos por meio de aplicativos de celular (22%) ou por meio de anotações em papel (22%). Já um terço (30%) reconhece não fazer controle dessas despesas.

Entre as pessoas ouvidas, 46% contam que nunca pagaram o mínimo da fatura, optando por sempre quitar o valor integral. Outra fatia dos entrevistados (21%) disse já ter pago o mínimo em algum momento, embora não tenham usado o rotativo há mais de um ano, 13% costumam recorrer ao financiamento da fatura e 2% pagam apenas o mínimo.

Em vigor desde abril de 2017, as novas regras do rotativo do cartão ainda são vistas com cautela pelos entrevistados. Dentre os consumidores que já pagaram o mínimo da fatura do cartão de crédito alguma vez e conhecem a nova regra do rotativo (80%), quase um terço (28%) não considera as novas regras favoráveis. Para eles, os juros continuam abusivos e o valor da dívida permanece alto (10%). Já 58% dos entrevistados enxergam que a mudança tem contribuído de alguma forma, principalmente por ver o valor da parcela negociada junto ao banco caber no orçamento (46%).

“Ao contrário do que acontecia, o consumidor que hoje não consegue arcar com o valor integral de sua fatura pode fazer o pagamento mínimo apenas uma única vez. Na fatura seguinte, ele não consegue rolar a dívida como antes, por ter de pagar a fatura total”, explica Marcela Kawauti. “Caso isso não aconteça, o banco é obrigado a oferecer uma linha de crédito mais barata do que a taxa do rotativo, de modo que o consumidor negocie e parcele sua dívida”, conclui.

Para aqueles que não utilizaram cartão de crédito nos últimos 12 meses (30%), o principal motivo deve-se ao fato de estar com o nome sujo e não conseguir solicitar um cartão (30%). Outros preferem o pagamento à vista, seja para ganhar desconto (20%) ou porque preferem esta forma de pagamento, mesmo sem desconto (19%).

Ainda de acordo com o levantamento, quase a metade (48%) dos entrevistados que usaram o cartão nos últimos doze meses já ficou com o nome sujo devido à inadimplência no pagamento, sendo que 30% indicaram ter regularizado a situação e 18% ainda permanecem negativados. Cerca de um terço (33%) já teve o cartão bloqueado pelo atraso no pagamento da fatura.

A pesquisa revela ainda que 30% dos entrevistados tentaram adquirir um cartão nos últimos três meses. Desse total, 21% não obtiveram êxito e 9% conseguiram. A maioria (60%) considerou difícil ou muito difícil adquirir um cartão.

Muitas vezes, o consumidor opta por adquirir um cartão de crédito para participar dos famosos programas de fidelidade ou clube de benefícios. De acordo com a pesquisa, 28% utilizam esse meio de pagamento em compras que normalmente fariam de outra forma apenas para acumular pontos em programas de fidelidade. Entretanto, metade (50%) dos que fazem parte desses programas não utiliza os pontos, dos quais 19% afirmam esquecer de que os têm e 19% dizem que os pontos nunca são suficientes para realizar as trocas. No sentido inverso, metade (50%) costuma utilizar os pontos.

Fonte: CNDL

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